Imagem Ilustrativa
Reunião El Nino nordeste ANA

El Niño deve permanecer ativo até 2027, segundo boletim nacional

O El Niño deve permanecer ativo até, pelo menos, o início de 2027 e apresenta alta probabilidade de alcançar intensidade muito forte entre a primavera e o verão. A projeção consta no Boletim Mensal nº 2 do Painel El Niño 2026-2027, referente a julho.

O documento indica que o fenômeno deve provocar efeitos distintos entre as regiões brasileiras. Para o trimestre de agosto a outubro, a tendência predominante é de chuva abaixo da média no centro-norte do país, incluindo o Nordeste, enquanto áreas da Região Sul podem registrar precipitações acima da normal climatológica.

O boletim foi elaborado conjuntamente pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Serviço Geológico do Brasil (SGB), Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) e Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam).

Fenômeno deve se intensificar nos próximos meses

As condições de El Niño foram oficialmente estabelecidas no Oceano Pacífico Equatorial em 11 de junho. Nas semanas analisadas pelo boletim, as anomalias da temperatura da superfície do mar chegaram a 1,4°C na região Niño 3.4, principal área usada no acompanhamento do fenômeno.

Na região Niño 3, o aquecimento alcançou 1,8°C. Já na região Niño 1+2, localizada próxima à costa oeste da América do Sul, a anomalia chegou a 3°C. Alterações nos ventos e em outros indicadores atmosféricos também apresentaram o padrão característico do El Niño.

As previsões do Apec Climate Center apontam 100% de probabilidade de manutenção de condições de El Niño forte até o fim de 2026. A projeção da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa) indica 81% de chance de o evento alcançar a categoria muito forte no trimestre de outubro a dezembro.

Um El Niño é classificado como muito forte quando a anomalia da temperatura do Pacífico Equatorial ultrapassa 2°C. O boletim ressalta, no entanto, que a intensidade do aquecimento oceânico não determina sozinha a dimensão dos impactos em cada região.

Nordeste deve ter menos chuva e temperaturas mais altas

A previsão climática elaborada por Inpe, Inmet e Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) indica maior probabilidade de chuva abaixo da normal climatológica em grande parte das regiões Norte e Nordeste e em áreas do Centro-Oeste.

Para a temperatura, a tendência é de valores acima da média em praticamente todo o Brasil. A combinação de calor, baixos volumes de chuva e redução da umidade pode aumentar a perda de água do solo e o risco de incêndios florestais.

Na Região Nordeste, a situação atual da seca já é mais desfavorável do que a observada em junho de 2023, quando começava o episódio anterior de El Niño. A seca moderada atingia 10% da região naquele ano, contra 40% em junho de 2026.

O quadro atual também apresenta impactos de curto e longo prazo, sinal de maior duração. Segundo o documento, a situação pode afetar a segurança hídrica e o abastecimento, sobretudo em locais onde os reservatórios ainda não recuperaram completamente seus volumes.

O aumento das temperaturas tende a elevar a demanda evaporativa da atmosfera. Isso significa maior retirada de água do solo e da vegetação, mesmo sem uma redução adicional expressiva da chuva.

Rio São Francisco requer acompanhamento

Apesar da perspectiva de menor precipitação, os principais reservatórios do Sistema Hídrico do Rio São Francisco permaneciam em situação operacional considerada normal no fim de julho.

Em 27 de julho, a Usina Hidrelétrica de Três Marias armazenava 92,5% do volume útil. Sobradinho registrava 80,8%. Os volumes representavam reduções de 3,3 e 5,6 pontos percentuais, respectivamente, em relação ao mês anterior.

O boletim chama atenção, porém, para a situação do rio na região de Bom Jesus da Lapa. A estação foi usada como referência para o Nordeste e apresentava nível situado na parte inferior da faixa considerada normal.

A perspectiva de chuva abaixo da média pode dificultar a recuperação dos níveis e manter condições mais secas durante o segundo semestre. O modelo hidrológico do Cemaden também indica continuidade da redução das vazões, com possibilidade de valores abaixo da média nas bacias dos rios São Francisco e Tocantins-Araguaia.

Agricultura pode ter efeitos diferentes

Na agropecuária nordestina, o período mais seco pode favorecer a colheita do milho de segunda safra e do algodão no Matopiba, área agrícola que inclui parte do oeste da Bahia. A menor ocorrência de chuva também facilita a secagem natural de grãos e capulhos.

Em contrapartida, a restrição de umidade pode dificultar o início da safra de verão, reduzir o potencial produtivo das lavouras de sequeiro e elevar a demanda por irrigação. A disponibilidade de água para a pecuária também pode ser afetada.

O quadro nacional de seca apresentou piora entre os dois últimos trimestres analisados. O número de municípios classificados em seca severa passou de 38, entre abril e junho, para 55 no período parcial de maio a julho.

Apesar do avanço, a situação ainda é menos intensa do que no mesmo período de 2023, quando 239 municípios estavam em seca severa e dez em seca extrema. As categorias mais intensas estão concentradas principalmente no Matopiba.

Na Bahia, o boletim registrou novos casos de seca severa em unidades de conservação, entre elas a Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins, localizada entre Bahia e Tocantins, e a Floresta Nacional de Cristópolis, no oeste baiano.

Risco de incêndios aumenta no interior do país

A previsão para o trimestre de agosto a outubro aponta crescimento do risco de fogo no interior do Brasil em comparação com o boletim anterior. As áreas classificadas em alerta se expandiram pelo oeste do Nordeste e por parte do Sudeste.

Os maiores níveis de atenção aparecem no Centro-Oeste e na Região Norte. O documento recomenda reforço das ações de monitoramento, prevenção e preparação operacional para o combate aos incêndios.

O boletim pondera que a estimativa de risco foi calculada com base na previsão de chuva abaixo da média adotada por Inpe, Inmet e Funceme. Outros modelos internacionais indicam cenários mais úmidos para partes do Centro-Oeste e do Sudeste, o que poderia reduzir o risco nessas áreas.

Recomendações para estados e municípios

Diante das projeções, o boletim recomenda que governos estaduais e municipais revisem e atualizem os planos de contingência para cenários associados ao El Niño.

As administrações também devem fortalecer os sistemas de monitoramento, alerta e comunicação de riscos, além de integrar a atuação das áreas de recursos hídricos, meio ambiente, saúde, assistência social, segurança pública e Defesa Civil.

Outra orientação é identificar antecipadamente os equipamentos, equipes e recursos disponíveis para resposta, com prioridade para comunidades e áreas mais vulneráveis.

Para a população, a recomendação é acompanhar previsões e alertas dos órgãos oficiais, manter atualizado o cadastro para recebimento de mensagens da Defesa Civil e conhecer os riscos, locais seguros e rotas de fuga existentes no município.

As instituições responsáveis pelo painel devem continuar atualizando mensalmente as projeções. Segundo o boletim, a distribuição e a intensidade dos impactos dependerão da evolução conjunta das condições atmosféricas e oceânicas durante os próximos meses.

Confira o boletim completo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *