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Uma investigação jornalística realizada pelo Repórter BrasilAgência Pública e a organização suíça Public Eye mostrou dados alarmantes sobre a qualidade da água consumida nos municípios brasileiros. Segundo as informações obtidas junto ao Ministério da Saúde, das 36.523 amostras realizados entre 2014 e 2017, 80% apresentaram contaminação por resíduos de agrotóxicos.

Na Região Imediata de Guanambi, muitos municípios apresentaram resultados que indicam a contaminação por até 15 tipos de agrotóxicos, entre 27 pesquisados. É o caso de Caetité, Caculé, Guajerú, Jacaraci, Lagoa Real, Licínio de Almeida, Macaúbas, Rio do Antônico, Rio do Pires e Urandi. Em Ibiassucê e Mortugaba, as análises encontraram um tipo de agrotóxico presente na água. A pesquisa não encontrou análises realizadas em Guanambi e outros municípios da região. Os dados podem ser acessados individualmente no site portrasdoalimento.info.

Entre os agrotóxicos presentes na água distribuída à população dos municípios citados, oito são associados a doenças crônicas como câncer, defeitos congênitos e distúrbios endócrinos. Destes, três foram encontrados em níveis acima do permitido pela legislação brasileira. Se considerados os parâmetros usados na União Europeia, outros doze produtos encontrados estariam a acima dos limites considerados seguros para consumo humano.

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As empresas de abastecimento de 1.396 municípios detectaram todos os 27 pesticidas que são obrigados por lei a testar. Na Bahia, quatro municípios encontram-se nessa situação. São Felix do Coribe, Itapetinga, Mucugê e Camaçari. A pesquisa revelou ainda que a falta de monitoramento também é um problema grave. Dos 5.570 municípios brasileiros, 2.931 não realizaram testes na sua água entre 2014 e 2017.

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O retrato nacional da contaminação da água gerou alarde entre profissionais da saúde. “A situação é extremamente preocupante e certamente configura riscos e impactos à saúde da população”, afirma a toxicologista e médica do trabalho Virginia Dapper. O tom foi o mesmo na reação da pesquisadora em saúde pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Pernambuco, Aline Gurgel: “dados alarmantes, representam sério risco para a saúde humana”.

Em nota, a Embasa confrontou os resultados divulgados pela pesquisa. A empresa afirmou que todas as amostras de de água analisadas no período estão isentas de substâncias presentes em agrotóxicos. A empresa afirmou ainda que atende aos parâmetros de potabilidade estabelecidos pela legislação brasileira e reforçou que a água tratada está sendo distribuída em condições de potabilidade e não apresenta risco à saúde humana.

Questionada sobre a ausência de análises em alguns municípios, a empresa disse analisa a água distribuída em todos os municípios que atua, e que os resultados analisados são divulgados na plataforma – Siságua, à qual os municípios têm acesso por meio dos técnicos da vigilância sanitária ou solicitando diretamente à Embasa.

O Ministério da Saúde respondeu aos questionamentos da reportagem, reforçando que “a exposição aos agrotóxicos é considerada grave problema de saúde pública” e listando efeitos nocivos que podem gerar “puberdade precoce, aleitamento alterado, diminuição da fertilidade feminina e na qualidade do sêmen; além de alergias, distúrbios gastrintestinais, respiratórios, endócrinos, neurológicos e neoplasias” (Leia a íntegra das respostas do Ministério da Saúde).

A resposta, porém, ressalta que ações de controle e prevenção só podem ser tomadas quando o resultado do teste ultrapassa o máximo permitido em lei. No entanto, o Brasil não tem um limite fixado para regular a mistura de substâncias. Ou seja, se foram detectados diversos agrotóxicos, mas cada um abaixo do seu limite individual, a água será considerada potável no Brasil, diferente do que ocorre na Europa por exemplo.

Nos últimos quatro anos, o Ministério da Agricultura liberou o registro de mais de 1,2 mil agrotóxicos, somente neste ano foram 152 liberações.

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