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A pandemia atingiu em cheio a produção dos pequenos agricultores da Bahia. Os compradores sumiram, os preços caíram, e as medidas de isolamento criaram entraves para o escoamento da produção. No Recôncavo, um produtor de mandioca contou que está sobrevivendo do auxílio emergencial do governo federal. Na Chapada Diamantina, produtores de morango precisaram se reinventar para driblar a crise. No Sul, laticínios chegaram a fechar as portas para desespero dos pequenos produtores.

Parte da farinha que os moradores de Salvador consomem vem da propriedade do agricultor Antônio Gilson Dias, 32 anos, no Recôncavo. Por lá, a mandioca e o aipim são os produtos que colocam a comida na mesa e sustentam a família. Nessa época do ano são colhidas até 40 toneladas desses alimentos. Depois, eles seguem para as mãos de comerciantes que vendem nas feiras em Cruz das Almas, Maragojipe, Cachoeira, Santo Amaro, e a maior parte na Ceasa de Simões Filho, por onde chegam à capital.

Antônio contou que o primeiro efeito da crise foi sentido na aquisição de insumos, que ficaram mais raros e mais caros, e em seguida na queda dos preços dos produtos que ele comercializa. O saco com 40 kg de aipim, tá saindo por R$ 10, e a tonelada da mandioca por R$ 300. Em uma situação normal, sem pandemia, o valor seria o dobro. A decisão de algumas cidades de suspender as feiras e de alguns feirantes de interromper as atividades para evitar aglomerações, foi outro agravante.

“Em nosso caso, não foi diminuição da produção, por já estar em período de colheita, assim como a maioria dos agricultores do município, a produtividade tem sido dentro da média, porém a dinâmica das feiras livres tem nos afetado em cheio, muitos feirantes deixaram de trabalhar por venderem pouco ou pela exposição ao vírus”, contou.

Ele também produz batata-doce, milho, amendoim, inhame e jaca. Sem conseguir vender os produtos, ou vendendo a preços que não pagam os custos com a produção, o agricultor recorreu ao benefício oferecido pelo governo federal. Ele recebeu a primeira parcela, e está aguardando pela segunda. “O auxilio emergencial e o pouco que vendemos tem nos garantido o básico. Mas já temos compromissos vencidos e sem honrar. Empréstimos do Pronaf teremos que renegociar com o banco”, disse.

Criatividade

A situação não está muito diferente na Chapada Diamantina. O gestor da CoopChapada, entidade que representa 60 produtores de morango e outras frutas da região, Daniel Ferreira, contou que os agricultores estão tendo que escolher quais contas vão pagar primeiro e quais serão quitadas em atraso. No caso deles, o foco não são as feiras, mas sim as empresas. O carro chefe da produção é a fruta in natura, mas quando a queda nas vendas atingiu 50%, eles decidiram se reinventar.

“Até o início de abril a gente ainda não tinha um plano de como lidar com a crise. Nossos compradores são delicatessens, restaurantes, Ceasas, lanchonetes, enfim, todos aqueles que foram afetados pela crise. A gente sempre vendeu para CNPJ, mas em abril começamos a rever isso e vimos que o jeito para tentar evitar mais perdas era alcançar no consumidor final. Foi, então, que surgiu a ideia de fazer um delivery”, disse.

O serviço foi consequência da criatividade. Nas melhores colheitas os agricultores chegam a produzir até 8 mil caixas de morango em um mês, mas desde o início da pandemia tem produtor que vendeu 100 caixas em 30 dias, quando a média dele era de mil embalagens. A saída que alguns encontraram foi congelar a fruta para não perder, o que mais tarde se transformou em uma ideia de negócio. A cooperativa sempre vendeu morango congelado, mas como uma atividade extra. Agora, ela se tornou a principal.

“Fizemos campanha de divulgação nas redes sociais, fretamos um carro para trazer toda a produção para Salvador e vendemos na capital, em seis dias, 900 kg de morango congelado. Antes a gente comercializava, em um mês, 300 kg. É claro que isso não resolve o problema, ainda estamos tendo que escolher qual conta vamos pagar, mas, pelo menos, tem ajudado de alguma forma”, contou Ferreira.

Além de Salvador, os pequenos agricultores da Chapada Diamantina têm negócios também com Feira de Santana, Barreiras, Itaberaba e nas cidades pernambucanas de Recife e Petrolina, mas todas estão paralisadas pela pandemia. O sistema de delivery criado para lidar com a crise enfrenta dificuldades de logística, falta pessoal e não é possível atender todos os bairros da capital, mas está funcionando.

Para o agricultor Raimundo Lopes, 45 anos, essa solução foi um alívio. Ele contou que chegava a produzir até 200 kg de morango por safra e que o principal comprador era de Recife. O cliente aparecia até duas vezes na semana, mas, agora, fez dois meses que ele não vê o rapaz. Raimundo reduziu a produção pela metade e o cultivo de laranjas, outra atividade que ele desenvolve, é o que tem ajudado a pagar as contas, além do auxílio emergencial.

“Estamos em um período de entressafra, então, a produção já é menor. A gente produziria agora 60 kg de morango, mas tive que reduzir a adubação de três vezes na semana para apenas uma. Dispensei duas pessoas que ajudavam a gente e fiquei apenas com uma moça que vem duas vezes na semana. A situação está complicada, mas já esteve pior. Os clientes também atrasaram o pagamento. A crise atingiu todo mundo”, disse.

Agora, os produtores de morango da Chapada estão buscando parceria com outros produtores de frutas e até de chocolate. O objetivo é montar cestas para comercializar na semana do Dia dos Namorados.

Fornecedores

Quem compra dos pequenos produtores também sentiu os efeitos da pandemia. Segundo o diretor do Sindicato das Indústrias de Laticínios e Produtos Derivados do Leite do Estado da Bahia (Sindileite), Rafael Teixeira, a queda na venda do insumo em março foi tão grande que alguns laticínios dispensaram os produtores e suspenderam as atividades. O Sindicato não soube precisar quantas empresas baixaram as portas, mas disse que o cenário foi tenso.

“Muitos laticínios atuam com merenda escolar, restaurantes, hotéis e programas federais de distribuição de leite. Todos esses setores foram impactados pela pandemia. Então, muitos dispensaram seus fornecedores ou avisaram para eles que precisariam reduzir a produção. Foi um momento muito complicado”, contou Rafael.

A situação só não foi pior porque no começo do ano um novo laticínio começou a operar na Bahia. A empresa estava precisando de leite e acabou absorvendo o que os produtores não conseguiram vender para as outras indústrias. Além disso, o governo federal resolveu manter os programas sociais, algumas prefeituras autorizaram no mês seguinte a entrega da merenda escolar, mesmo sem aulas, e a sociedade se mobilizou.

“O varejo passou a valorizar mais o produto regional, nós também fizemos algumas ações nesse sentido, e isso deu resultado. Hoje, a produção está um pouco mais equilibrada. Ainda não está bom, mas já esteve pior”, disse.

A Bahia produz cerca de 800 milhões de litros de leite por ano, e a estimativa do sindicato é de que para cada litro de leite há quatro pessoas trabalhando. A maior parte da produção está concentrada do Sul e no Extremo-Sul do estado, região com o maior número de casos de covid-19, depois de Salvador e Região Metropolitana, e onde diversas medidas restritivas foram decretadas.

Nesta segunda-feira (25), o governo do estado anunciou algumas ações para ajudar os agricultores familiares, como a destinação de R$ 15 milhões para projetos socioambientais voltados para atender essas famílias (confira abaixo). Até a segunda, o estado tinha 14,2 mil casos confirmados da covid-19, e 477 óbitos provocados pela doença.

Reportagem de Gil Santos | Correios*

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