Quase um ano depois do colapso da ponte Juscelino Kubitschek, que matou 14 pessoas e deixou três desaparecidas no Rio Tocantins, as obras da nova travessia na BR-226, entre Aguiarnópolis (TO) e Estreito (MA), chegaram a 90% de execução.
De acordo com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), a conexão dos dois lados está prestes a ser concluída, o que deve restabelecer a ligação rodoviária entre Tocantins e Maranhão e garantir o fluxo do corredor Brasília–Belém.
A antiga ponte desabou em 22 de dezembro de 2024, véspera de Natal, quando dezenas de veículos cruzavam a estrutura. Dezoito pessoas caíram no rio; apenas uma sobreviveu.
Após o acidente, o Dnit decretou emergência e contratou, em 31 de dezembro de 2024, a obra da nova ponte, apenas nove dias depois da queda da estrutura antiga. O contrato, de aproximadamente R$ 171 milhões, permitiu o início imediato de serviços como elaboração dos projetos executivos, montagem do canteiro e fundações. Em 10 meses de trabalho, a execução atingiu 90%, segundo balanço divulgado em 26 de novembro.
Para manter o cronograma, mais de 300 trabalhadores atuam em dois turnos, inclusive aos fins de semana. Uma das soluções adotadas para acelerar a construção foi a fabricação paralela de elementos pré-moldados. Ao todo, foram produzidas 2.062 pré-lajes e 45 vigas pré-fabricadas, já instaladas na nova Ponte de Estreito. Neste momento, as frentes de serviço se concentram na conclusão das aduelas, protensões e detalhes estruturais que permitirão a união definitiva das duas margens.
As equipes também já iniciaram a colocação das juntas de dilatação, instalação do guarda-corpo metálico e conclusão das barreiras New Jersey, elementos de concreto que protegem o tráfego em caso de impactos laterais. Na fase final, serão executados os serviços de pavimentação, sinalização horizontal e vertical e a prova de carga, etapa que testa a capacidade da ponte antes da liberação ao tráfego geral.
A nova estrutura terá 630 metros de extensão — cerca de 100 metros a mais que a ponte antiga — e um vão central de 154 metros, sustentado por dois pilares com altura equivalente a um prédio de sete andares. O Dnit afirma que o projeto foi dimensionado para suportar o volume atual de veículos pesados que circulam pelo corredor Brasília–Belém, trecho estratégico para o transporte de cargas entre a Região Norte e o restante do país.
Moradores de Estreito e Aguiarnópolis acompanham de perto o avanço das obras. O comerciante José Raimundo Sousa Garcia, de 58 anos, diz esperar voltar a atravessar o rio pela ponte, como fazia antes da tragédia. “Vi a cidade nascer e crescer. Creio que, em breve, vamos estar atravessando ela a pé, de carro, como fazíamos antigamente”, afirmou, ao comentar a aproximação da etapa que unirá os dois lados da travessia.
Enquanto a ponte não é concluída, a travessia entre Maranhão e Tocantins continua sendo feita por balsas. A espera, segundo motoristas, pode chegar a várias horas, especialmente em períodos de maior movimento. “Às vezes, eu chego aqui meio-dia e consigo passar 10 horas da noite”, relatou o caminhoneiro Júlio César. O gesseiro Luiz Oliveira disse ter aguardado mais de duas horas para embarcar.
Para famílias que perderam parentes na queda da ponte JK, o avanço da nova obra convive com a dor das perdas. Entre as vítimas estão Alessandra, o marido Salmon e o neto Felipe, de 10 anos. Eles viajavam de Palmas para o Maranhão e foram vistos pela última vez em um vídeo que mostra a caminhonete entrando na ponte atrás de um caminhão. Apenas o corpo de Alessandra foi encontrado; Salmon e Felipe seguem desaparecidos.
Causas do desmoronamento
Uma reportagem do programa Fantástico, da TV Globo, exibida no fim de julho, detalhou o laudo sobre o acidente. A investigação da Polícia Federal concluiu que o colapso foi provocado pela deformação do vão central, causada pelo excesso de peso dos veículos e pela perda de resistência dos materiais ao longo das décadas, em uma estrutura projetada nos anos 1960 para uma realidade de tráfego muito menor.
Os peritos usaram drones, scanners a laser e modelagem 3D para reconstituir o momento do desastre. Segundo o relatório, o processo de colapso durou cerca de 15 segundos e o vão central caiu em menos de um segundo. A ponte, com vão livre de 140 metros, foi construída em concreto protendido, tecnologia avançada para a época, sobre um trecho profundo do Rio Tocantins em que não era possível instalar pilares de apoio.
O laudo também apontou intervenções anteriores que podem ter contribuído para o enfraquecimento da estrutura. Na reforma feita entre 1998 e 2000, foram retiradas camadas de concreto e aplicada nova pavimentação asfáltica, além de reforços laterais. De acordo com os peritos, esses reforços se desprenderam “como fita crepe” no momento da ruptura. Um relatório técnico encomendado pelo DNIT em 2019, divulgado em 2020, já registrava rebaixamento de 70 centímetros no vão central e classificava as condições da ponte como “sofríveis e precárias”.
Apesar das recomendações, a recuperação completa da ponte não saiu do papel. Uma licitação aberta em 2024 não teve vencedor e o colapso ocorreu antes que um novo processo fosse concluído. Com o laudo em mãos, a Polícia Federal agora ouve gestores e responsáveis pelo planejamento das obras. Para o delegado Allan Reis de Almeida, houve omissão na manutenção. “Esse desastre foi anunciado, era de conhecimento, e era plausível que poderia acontecer”, afirmou em entrevista ao Fantástico.
O diretor técnico-científico da Polícia Federal, Roberto Reis Monteiro Neto, considera o caso um alerta sobre a importância da manutenção preventiva de obras de arte especiais, como pontes e viadutos. Segundo ele, avaliações periódicas da carga suportada e intervenções tempestivas poderiam evitar tragédias semelhantes. “Se eu tenho uma manutenção adequada, no tempo adequado, e reavaliações periódicas da carga suportada pelas pontes, talvez a gente consiga evitar que isso aconteça novamente”, afirmou.
Conclusão
A conclusão da nova ponte está inicialmente prevista para ser concluída em dezembro, no entanto, o Dnit não indicou uma data exata para a reabertura do tráfego sobre o Rio Tocantins.
Com a conclusão da obra, o governo federal pretende restabelecer de forma definitiva a ligação rodoviária na BR-226/TO/MA e reduzir o tempo de travessia entre Estreito e Aguiarnópolis. A expectativa é que a infraestrutura mais robusta e moderna substitua, com maior segurança, a ponte que desabou em 2024 e volte a integrar, sem interrupções, o fluxo de pessoas e mercadorias entre o Norte e as demais regiões do país.
