O Boletim Agroclimatológico Mensal do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) de janeiro de 2026 indica que o Nordeste deve enfrentar, no trimestre janeiro–fevereiro–março (JFM) de 2026, um cenário predominante de chuva abaixo da média, combinado com temperaturas acima da média em áreas do interior, o que tende a manter restrições de umidade no solo em parte do semiárido e aumentar a pressão sobre culturas de sequeiro.
A tendência é relevante porque o boletim usa um multi-modelo objetivo (parceria com CPTEC/INPE e Funceme) para orientar planejamento agrícola e monitoramento de precipitação, temperatura e água no solo.
Nordeste: janeiro a março de 2026
Chuva
- A previsão indica volumes abaixo da média histórica em grande parte do Nordeste, com redução de até 100 mm em áreas do sul do Maranhão, norte do Piauí, oeste do Ceará e no semiárido.
Temperatura
- O boletim aponta temperaturas acima da média em áreas do sul do Maranhão, centro-sul do Piauí e porção centro-oeste da Bahia.
Umidade no solo e déficit hídrico
- A tendência é de armazenamento hídrico do solo abaixo de 30% no semiárido, além de valores baixos também no litoral sul e oeste da Bahia; por outro lado, Maranhão e o extremo oeste baiano aparecem com níveis acima de 50%.
- O boletim projeta déficits hídricos de até 60 mm em áreas como o litoral da Bahia, sul do Maranhão e oeste do Ceará.
Possíveis impactos no campo
1) Semiárido (interior)
- Com chuva abaixo da média e solo com baixa reserva (abaixo de 30% em grande parte), a tendência é de maior risco de estresse hídrico para lavouras de sequeiro e para pastagens, especialmente onde o boletim aponta manutenção de baixos estoques.
- Para produtores, o cenário costuma exigir mais cautela no escalonamento de plantio e no manejo de rebanhos e forragens, já que a oferta de água no solo é o fator limitante destacado pelo boletim.
2) MATOPIBA (sul do Maranhão e faixa de transição do Piauí)
- A indicação de redução de chuva no sul do Maranhão e no norte do Piauí aumenta a chance de oscilações no ritmo de plantio e de desenvolvimento das lavouras, sobretudo em áreas de sequeiro.
- O boletim, ao mesmo tempo, mostra que partes do Maranhão podem manter umidade do solo acima de 50%, o que tende a sustentar melhor o ciclo das culturas onde essa condição se confirmar.
3) Oeste do Ceará
- O modelo indica chuva abaixo da média e aponta a área entre as que podem registrar déficit hídrico no trimestre.
- Em termos agrícolas, isso costuma significar maior necessidade de manejo de água disponível (onde houver irrigação) e maior risco para culturas dependentes de regularidade das chuvas.
4) Bahia: centro-oeste e oeste
- O boletim sinaliza temperaturas acima da média na porção centro-oeste do estado.
- No oeste da Bahia, aparecem áreas com maior umidade do solo (acima de 50%), enquanto o boletim também registra condição de baixa umidade em parte do oeste/litoral sul do estado — o que reforça a necessidade de olhar localmente para a evolução das chuvas.
- Para culturas de grãos, o impacto tende a depender do balanço entre chuva efetiva e temperatura: com mais calor, a demanda atmosférica aumenta; com menos chuva, a janela de conforto hídrico diminui.
5) Litoral da Bahia
- O litoral baiano é citado entre as áreas com possibilidade de déficit hídrico de até 60 mm no trimestre, o que pode reduzir a reposição de umidade do solo e exigir atenção a culturas mais sensíveis ao déficit, sobretudo onde a irrigação é limitada.
E as outras regiões do Brasil, em segundo plano
Fora do Nordeste, o boletim indica chuva acima da média em grande parte da região Norte (com destaque para áreas do Amazonas, Pará e Amapá), enquanto no Centro-Oeste a chuva tende a ficar próxima ou acima da média em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, e abaixo em Goiás. No Sudeste, há sinal de chuva abaixo da média em parte de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e norte de São Paulo; e no Sul, o boletim projeta umidade do solo elevada em grande parte da região, com exceções pontuais no extremo sul do Rio Grande do Sul em janeiro.
Condições oceânicas: o pano de fundo para a chuva no Nordeste
O boletim informa neutralidade do Dipolo do Atlântico em dezembro de 2025, com anomalias de temperatura da superfície do mar (TSM) de 0,21 °C no Atlântico Tropical Norte e 0,08 °C no Atlântico Tropical Sul.
Mesmo com o dipolo neutro, o Inmet ressalta que anomalias positivas no Atlântico Norte podem favorecer o deslocamento da ZCIT mais ao norte e desfavorecer a chuva ao longo da costa norte do Nordeste.
No Pacífico, o boletim registra anomalia de -0,6 °C na região Niño 3.4 em dezembro (sinal de resfriamento), mas a referência do IRI citada no documento aponta 65% de probabilidade de neutralidade do ENOS no trimestre JFM de 2026.
Como foi dezembro de 2025 no Nordeste, segundo o boletim
Na análise do mês anterior, o Inmet aponta que os maiores volumes no Nordeste ficaram no extremo oeste da Bahia, além do sul do Maranhão e do Piauí, com acumulados acima de 120 mm. Nessas áreas, o armazenamento de água no solo ficou entre 50% e 80%, condição associada pelo boletim a melhor suporte para plantio e estabelecimento inicial de lavouras no MATOPIBA.
Em contraste, grande parte do litoral e interior do semiárido teve volumes inferiores a 50 mm, com armazenamento de água no solo abaixo de 20%, mantendo limitações para culturas de sequeiro; o boletim também registra locais com estoques inferiores a 5% em áreas do Nordeste após o mês.
Nas temperaturas, o boletim informa médias de máximas acima de 30 °C em várias regiões do país; no Nordeste, houve áreas com médias acima de 34 °C, incluindo parte do norte da Bahia. Entre as menores médias de temperatura mínima no Nordeste, é citada Vitória da Conquista (17,4 °C).
