A Bahia ganhou dois novos reconhecimentos federais de patrimônio cultural durante a 112ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, realizada nos dias 10 e 11 de março, no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro.
Em Lençóis, na Chapada Diamantina, a Festa de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos foi registrada como Patrimônio Cultural do Brasil. Já em Nazaré, no Recôncavo, o Iphan aprovou o tombamento definitivo do Solar Artur Sampaio, edificação histórica ligada à formação urbana e econômica do município.
No caso de Lençóis, o reconhecimento alcança uma celebração realizada há mais de 150 anos, entre 23 de janeiro e 2 de fevereiro, considerada uma das principais manifestações culturais da cidade. Segundo o Iphan, a festa reúne elementos do catolicismo popular, das religiões de matriz africana e da cultura garimpeira, marca da formação histórica do município.
Diferentemente de outras festas do Senhor dos Passos no país, geralmente ligadas à Quaresma e ao sofrimento de Cristo, a celebração em Lençóis tem caráter festivo, de louvor, agradecimento e encontro comunitário.
De acordo com a tradição oral registrada no processo, a festa teria começado em 1852, com a chegada a Lençóis de uma imagem encomendada em Portugal por negociantes de diamantes. Entre os principais bens culturais associados à celebração estão a Marujada, os Reisados, o grupo das Baianas, a Capoeira e o Jarê, expressão religiosa própria da Chapada Diamantina. Para o Iphan, a singularidade da festa também está no fato de ela congregar diferentes matrizes religiosas e ser organizada historicamente por uma sociedade ligada ao trabalho dos garimpeiros.
O novo registro também reforça a visibilidade do patrimônio cultural de Lençóis. Em novembro de 2025, o Conselho Consultivo já havia aprovado o tombamento do Terreiro Palácio de Ogum e Caboclo Sete-Serra, apontado pelo Iphan como o templo de Jarê mais antigo ainda em funcionamento no Brasil. Com isso, a cidade passa a reunir, em curto intervalo, dois reconhecimentos federais ligados à sua formação religiosa, social e cultural.
Solar Artur Sampaio
Em Nazaré, o tombamento definitivo do Solar Artur Sampaio foi aprovado no primeiro dia da reunião. Construída no início do século 19, a edificação fica às margens do Rio Jaguaripe, com fachada lateral dotada de acesso para embarcações que abasteciam o antigo armazém do pavimento térreo.
A fachada principal está voltada para a Praça Artur Sampaio, antigo Largo do Monte Belo. Para o Iphan, o imóvel é um exemplar relevante da preservação da história brasileira por refletir identidades locais e registrar práticas coletivas ligadas à formação urbana da cidade.
Segundo o instituto, o Solar atesta a ocupação urbana que deu origem a Nazaré e mantém ligação direta com acontecimentos que moldaram as dinâmicas econômicas e sociais da região. Com a decisão do conselho, o bem será inscrito nos Livros do Tombo Histórico e no Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico.
O Iphan destacou ainda que o sobrado se integra ao conjunto paisagístico do centro histórico da cidade, em articulação com outros marcos urbanos, como o Solar dos Arcos, a Praça José Bittencourt e a Ponte Eunápio de Queiroz.
Outro ponto destacado pelo instituto é a raridade arquitetônica do imóvel. De acordo com o diretor do Departamento de Patrimônio Material e Fiscalização do Iphan, Andrey Schlee, o Solar Artur Sampaio se sobressai por estar em uma cidade do interior da Bahia e por ter sua porta principal inteiramente voltada para o rio.
O reconhecimento amplia a proteção federal sobre o imóvel e reforça o valor histórico do conjunto urbano de Nazaré, município que já reúne outros bens tombados e atrativos como o Cine Teatro Rio Branco, a estátua do Cristo de Nazaré e a tradicional Feira dos Caxixis.
As duas decisões aprovadas nesta semana ampliam a presença da Bahia no mapa do patrimônio cultural brasileiro, contemplando tanto um bem imaterial, ligado à celebração e à memória coletiva em Lençóis, quanto um bem material, associado à paisagem histórica e à formação urbana de Nazaré. Na prática, os reconhecimentos reforçam a preservação de referências culturais distintas do estado, da Chapada Diamantina ao Recôncavo Baiano.
