Foto: TV Globo

Morre Benedito Ruy Barbosa, autor de Pantanal, Renascer e O Rei do Gado

Morreu nesta terça-feira, 7 de julho, aos 95 anos, o autor de novelas Benedito Ruy Barbosa, um dos principais nomes da teledramaturgia brasileira. A morte foi causada por complicações de insuficiência renal crônica.

Benedito Ruy Barbosa marcou a televisão brasileira com novelas centradas no universo rural, nas sagas familiares, nas disputas por terra, na imigração e nas transformações sociais do país. Entre seus principais trabalhos estão Pantanal, Renascer, O Rei do Gado, Terra Nostra, Cabocla, Paraíso, Os Imigrantes, Sinhá Moça, Meu Pedacinho de Chão e Velho Chico.

Nascido em 17 de abril de 1931, em Gália, no interior de São Paulo, Benedito cresceu em meio ao ambiente rural e à convivência com famílias de imigrantes que trabalhavam na produção de café. Essas experiências influenciaram parte importante de sua obra, marcada por personagens ligados ao campo, ao interior do Brasil e às disputas sociais presentes na formação do país.

Ainda criança, mudou-se com a família para Vera Cruz, também no interior paulista. O pai, Otávio Barbosa, mantinha uma livraria, uma tipografia e um jornal. A morte precoce dele, aos 29 anos, mudou a trajetória da família e levou Benedito a começar a trabalhar ainda jovem. Antes de chegar à televisão, foi caixeiro, escrevente de cartório, vendedor de jornal, auxiliar de guarda-livros, jornalista e publicitário.

Na juventude, deixou o interior rumo à capital paulista em busca de trabalho. Também viveu no Paraná, onde atuou no comércio de café, fez programa de rádio e escreveu para jornal local. A passagem pela região cafeeira paranaense inspirou seu primeiro romance, Fogo Frio, escrito após uma grande geada que atingiu lavouras. A obra foi adaptada para o teatro em 1959, com direção de Augusto Boal, no Teatro de Arena.

Benedito também passou por redações jornalísticas. Atuou como revisor e repórter, inclusive na área esportiva. Era torcedor do São Paulo e costumava lembrar da passagem pelo jornalismo como etapa importante de sua formação narrativa.

A chegada à teledramaturgia ocorreu nos anos 1960. Sua estreia como autor de telenovelas foi na TV Tupi, com Somos Todos Irmãos, exibida em 1966. Depois, trabalhou em emissoras como Excelsior, Record e Cultura. Em 1971, escreveu Meu Pedacinho de Chão, produção que já apresentava a temática rural que se tornaria uma das marcas de sua carreira.

Na Globo, consolidou-se a partir da segunda metade da década de 1970, especialmente no horário das 18h. Escreveu O Feijão e o Sonho, À Sombra dos Laranjais, Cabocla, Paraíso, Voltei pra Você, De Quina pra Lua, Sinhá Moça e Vida Nova. Também participou de trabalhos ligados ao Sítio do Picapau Amarelo.

Em 1981, levou à Band a novela Os Imigrantes, projeto sobre a formação do Brasil a partir da chegada de estrangeiros ao país. A imigração, sobretudo italiana, voltaria a aparecer em outros trabalhos, como Terra Nostra e Esperança.

Um dos pontos mais importantes de sua carreira ocorreu em 1990, quando escreveu Pantanal, exibida pela TV Manchete. A novela se tornou um fenômeno de audiência e rompeu padrões da televisão da época ao valorizar longas cenas externas, paisagens naturais, ritmo mais contemplativo e uma narrativa fortemente ligada ao ambiente rural.

O sucesso de Pantanal abriu caminho para a volta de Benedito à Globo e para sua entrada definitiva no horário nobre. Em 1993, escreveu Renascer, novela ambientada na zona cacaueira do sul da Bahia. A trama acompanhava a saga de José Inocêncio e incorporava elementos da cultura regional, das crenças populares e dos conflitos familiares.

Três anos depois, em 1996, Benedito emplacou outro grande sucesso: O Rei do Gado. A novela abordou disputas entre famílias, conflitos no campo, concentração fundiária, movimentos sociais e relações de poder. A obra se tornou uma das mais lembradas da década de 1990 e consolidou a presença de temas agrários no horário de maior audiência da televisão brasileira.

Em 1999, voltou ao tema da imigração italiana com Terra Nostra, novela protagonizada por uma história de amor entre imigrantes que chegam ao Brasil no fim do século XIX. A produção reforçou uma característica recorrente em sua dramaturgia: o uso de sagas familiares para narrar transformações históricas e sociais.

Mesmo nos últimos anos de carreira, suas obras seguiram presentes na televisão. Cabocla, Sinhá Moça, Paraíso, Meu Pedacinho de Chão, Pantanal e Renascer ganharam novas versões. Parte desses remakes foi conduzida por familiares, como as filhas Edmara e Edilene Barbosa e o neto Bruno Luperi.

Bruno Luperi assinou as novas versões de Pantanal, exibida pela Globo em 2022, e Renascer, exibida em 2024. As duas produções recolocaram a obra de Benedito Ruy Barbosa no centro da programação nacional e apresentaram suas histórias a novas gerações.

A última novela de Benedito como autor foi Velho Chico, exibida em 2016. Ambientada no sertão nordestino e ligada ao Rio São Francisco, a trama retomou temas frequentes em sua obra, como poder político, disputas familiares, conflitos por terra, religiosidade e relações entre tradição e modernidade.

Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, Benedito Ruy Barbosa ajudou a construir uma linguagem própria para a telenovela brasileira. Suas histórias levaram para a televisão cenários rurais, personagens do interior, conflitos agrários, memórias familiares e elementos da cultura popular.

Com sua morte, a televisão brasileira perde um autor que fez do campo, das sagas familiares e da história social do país matéria-prima para algumas das novelas mais populares da história.

Com informações da Folha

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