Centenas de pessoas se reuniram na Praça do Feijão, em Guanambi, na noite deste sábado, 18 de julho, para acompanhar uma competição que, até pouco tempo atrás, existia apenas como uma brincadeira nas redes sociais. Dezenas de participantes entraram na roda para dançar, desfilar, interpretar personagens e tentar demonstrar quem tinha mais “aura”.
Apesar de ser chamado de campeonato, o encontro teve mais características de uma apresentação coletiva do que de uma disputa convencional. Não houve premiação. O reconhecimento vinha dos aplausos, dos gritos do público e dos celulares apontados para cada participante.
A dimensão do evento surpreendeu até quem ajudou a divulgar a ideia. A mobilização começou de forma espontânea, depois que adolescentes sugeriram a realização do campeonato por meio das redes sociais. As publicações foram compartilhadas, chegaram a diferentes grupos e levaram à praça um público maior do que o esperado.
Também houve participantes de cidades vizinhas, entre elas Caetité. Na plateia, além dos adolescentes que acompanhavam as referências e expressões usadas nas apresentações, estavam adultos interessados em entender a brincadeira que tomou conta da internet.
O resultado foi uma cena pouco comum: uma tendência difundida por vídeos curtos conseguiu retirar centenas de jovens das telas e levá-los a uma praça pública para uma experiência presencial, além de conseguir despertar a curiosidade em quem não fazia ideia do que estava acontecendo no local.
O que significa “farmar aura”
A expressão combina palavras de dois ambientes diferentes. “Farmar” vem dos jogos eletrônicos e significa repetir determinadas ações para acumular pontos, experiência, itens ou outros recursos. Já “aura” passou a representar, na linguagem das redes sociais, o carisma, a confiança e a presença transmitida por alguém.
“Farmar aura”, portanto, é agir de maneira considerada marcante, estilosa ou confiante para conquistar admiração. A graça está em aparentar naturalidade, mesmo quando a atitude foi planejada para chamar atenção. A definição já foi incorporada por dicionários como o Merriam-Webster, que relaciona a expressão ao ato de parecer interessante ou impressionante sem demonstrar esforço excessivo.
O termo começou a ganhar espaço entre usuários de redes sociais em 2024, inicialmente associado a personagens de animações, jogadores de futebol, celebridades e pessoas que protagonizavam situações consideradas “cinematográficas”.
A expressão alcançou tamanha repercussão que esteve entre as três finalistas para Palavra do Ano de 2025 da Oxford University Press. Para a instituição, “aura farming” representa a construção de uma imagem pública atraente ou carismática, por meio de comportamentos destinados a transmitir confiança ou mistério.
Menino da Indonésia ampliou a tendência
A popularização mundial ganhou força em 2025, quando um vídeo do indonésio Rayyan Arkan Dikha começou a circular em diferentes plataformas. Ele tinha 11 anos quando foi filmado dançando com movimentos tranquilos na parte dianteira de uma embarcação durante a Pacu Jalur, tradicional corrida de barcos realizada na província de Riau, na Indonésia.
Rayyan não estava participando de uma brincadeira criada para as redes sociais. Ele exercia a função conhecida como “togak luan”, desempenhada por um integrante que fica na frente do barco para incentivar os remadores e indicar ao público quando a equipe está na liderança.
O vídeo tinha poucos segundos, mas a postura do menino foi associada à expressão “aura farming”. As imagens receberam novas músicas, edições e legendas, foram reproduzidas milhões de vezes e inspiraram atletas, clubes de futebol e criadores de conteúdo de vários países. A repercussão também tornou Rayyan embaixador cultural de sua região, conforme registraram a Channel News Asia e outros veículos internacionais.
Em 2026, a tendência ganhou uma adaptação brasileira. Em vez de apenas reproduzir a dança, jovens começaram a organizar campeonatos em praças, praias e outros espaços públicos. Eventos semelhantes foram registrados em cidades como Juazeiro do Norte, Cametá, Icoaraci, Jaboatão dos Guararapes e São Paulo.
Não existe uma organização nacional responsável pelas competições. Cada encontro nasce de publicações locais e adota formatos próprios. Em alguns lugares foram distribuídos troféus ou prêmios; em outros, como Guanambi, a disputa foi apenas simbólica.
Entre críticas e interação presencial
Os vídeos dessas competições também dividiram opiniões. Parte dos comentários trata as apresentações como exageradas ou constrangedoras. Outros usuários enxergam os encontros como uma forma de criatividade, convivência e diversão entre adolescentes.
Existe ainda uma ironia no próprio formato: na linguagem da internet, ter “aura” pressupõe demonstrar carisma sem parecer que está tentando. No campeonato, porém, os participantes entram diante de uma multidão justamente para produzir essa impressão.
A exposição de crianças e adolescentes em vídeos de grande alcance também desperta atenção. Uma apresentação feita para um grupo reunido na praça pode ser publicada, recortada e compartilhada para públicos muito maiores, sem que o participante tenha controle sobre a repercussão.
O caso de Rayyan mostrou outro lado da fama repentina. A ABC News da Austrália identificou uma conta não oficial que usava imagens do menino para promover uma suposta viagem internacional e cobrar por colaborações. Autoridades da Indonésia chegaram a orientar a família sobre tentativas de exploração comercial da imagem dele.
Em Guanambi, entretanto, a principal marca do encontro foi a capacidade de mobilização. Uma proposta feita por adolescentes, sem integrar o calendário oficial da cidade e sem depender de uma estrutura profissional, levou centenas de pessoas a ocupar a Praça do Feijão.
A experiência mostra como os sucessos da internet podem atravessar rapidamente fronteiras culturais e geográficas. Uma dança registrada em uma corrida tradicional da Indonésia virou meme internacional, ganhou novas interpretações no Brasil e, pouco tempo depois, reuniu uma multidão no interior da Bahia.
Mais do que descobrir quem tinha mais “aura”, o campeonato mostrou a força das redes para criar referências comuns entre adolescentes e transformar uma brincadeira digital em encontro presencial. Segundo o Unicef, a busca por pertencimento, reconhecimento e conexão com outros jovens faz parte do desenvolvimento na adolescência. Na Praça do Feijão, essa procura ganhou forma por meio de passos, poses, aplausos e muita improvisação.
