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Nota Cemaden El niño

Cemaden vê chance de El Niño forte, mas diz que possibilidade de Super El Niño ainda é incerta

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) divulgou uma nota técnica sobre o desenvolvimento do El Niño 2026/2027 e seus possíveis impactos no Brasil. O documento aponta que o fenômeno está em formação no Oceano Pacífico tropical, mas ressalta que ainda há incerteza sobre a intensidade que ele poderá alcançar nos próximos meses.

A avaliação do Cemaden indica que modelos climáticos internacionais projetam um evento de alto impacto, com possibilidade de atingir intensidade forte ou até muito forte. No entanto, o órgão destaca que previsões feitas nesta época do ano perdem confiabilidade no longo prazo e não permitem confirmar, neste momento, se o fenômeno chegará à condição de Super El Niño.

O El Niño ocorre quando há aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Quando esse aquecimento passa de determinados limites, ele pode alterar padrões de chuva, temperatura e circulação atmosférica em várias partes do planeta. No Brasil, os efeitos mais comuns incluem aumento de chuva na Região Sul e redução das precipitações em áreas do Norte e do Nordeste.

Possibilidade de Super El Niño ainda é incerta

Segundo o Cemaden, algumas simulações do modelo europeu ECMWF indicam que as anomalias de temperatura na região Niño 3.4 poderiam ultrapassar 2°C acima da média, limite usado para caracterizar um Super El Niño. Algumas projeções chegam a apontar valores próximos de 3°C, o que indicaria um evento histórico caso fosse confirmado.

Apesar disso, a nota técnica ressalta que previsões iniciadas em maio têm baixa confiabilidade para períodos mais longos, por causa das limitações do sistema oceano-atmosfera. O órgão também alerta que notícias sobre secas severas ou chuvas catastróficas específicas ainda não são sustentadas por dados científicos confiáveis.

A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), citada na nota, estimou em 82% a chance de El Niño se formar entre maio e julho e em 96% a probabilidade de desenvolvimento até dezembro. Ainda assim, a chance de o evento atingir a categoria “muito forte” foi estimada em 37%.

Possíveis impactos no Brasil

Caso o El Niño se confirme com intensidade moderada ou forte, os impactos mais relevantes no Brasil devem ocorrer a partir da primavera de 2026 e do verão de 2026/2027.

Nas regiões Norte e Nordeste, a tendência associada ao fenômeno é de redução das chuvas e aumento das temperaturas. Esse cenário pode favorecer períodos de estiagem mais severos, queda nos níveis dos rios, redução da umidade do solo e maior pressão sobre os recursos hídricos.

No Sudeste e no Centro-Oeste, o Cemaden avalia que o fenômeno pode comprometer parte da estação chuvosa, também acompanhado de altas temperaturas. Isso pode afetar a recuperação de reservatórios hidrelétricos e elevar o risco hidrológico em algumas bacias.

Já na Região Sul, o principal ponto de atenção é o aumento da propensão a chuvas intensas e volumosas, sobretudo na primavera. O relatório indica que o Rio Grande do Sul apresenta o sinal mais robusto para eventos de chuva forte, com potencial para enchentes, enxurradas, alagamentos e instabilização de encostas.

Santa Catarina também aparece com sinal relevante para impactos compostos, incluindo inundações, enxurradas rápidas e deslizamentos. No Paraná, o sinal é mais heterogêneo, mas há atenção para áreas como o sudoeste, centro-sul, Região Metropolitana de Curitiba, Serra do Mar e litoral.

Secas anteriores não garantem repetição do mesmo padrão

O Cemaden lembra que grandes secas na Amazônia ocorreram em anos de El Niño, como 1982/1983, 1997/1998, 2015/2016 e 2023/2024. No entanto, o órgão destaca que secas também podem ocorrer sem El Niño e que cada evento apresenta características próprias.

A nota cita que, durante o El Niño forte de 2023/2024, o Brasil enfrentou em 2024 a maior seca dos últimos 70 anos em extensão e intensidade. Em setembro daquele ano, 4.748 municípios brasileiros enfrentavam algum grau de seca, sendo 1.349 em níveis severos ou extremos.

Ainda assim, o Cemaden afirma que áreas afetadas por seca em eventos anteriores podem ou não ser atingidas novamente em 2026/2027. Por isso, o monitoramento regional será fundamental para avaliar os efeitos reais do fenômeno.

Agricultura familiar e recursos hídricos

A nota técnica também aponta riscos para a agricultura familiar. A análise do El Niño 2023/2024 mostrou aumento progressivo das áreas sob risco de seca de moderado a muito alto, especialmente no Norte, Nordeste e parte do Brasil Central.

No início de 2026, já havia sinais de aumento do risco potencial em áreas historicamente sensíveis ao El Niño, principalmente no noroeste da Região Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste. A preocupação está relacionada à redução da disponibilidade de água no solo, ao estresse hídrico das lavouras e à possibilidade de perdas de produtividade.

Nos recursos hídricos, o Cemaden destaca que déficits prolongados de chuva podem se transformar em seca hidrológica, com redução das vazões dos rios e comprometimento da recarga de aquíferos. O efeito pode atingir abastecimento humano, navegação, geração de energia, pesca e ecossistemas aquáticos.

Ondas de calor podem se intensificar

Outro ponto destacado pela nota é o aumento das ondas de calor no Brasil. Estudos do Cemaden indicam que esses eventos aumentaram em frequência e duração ao longo dos últimos 40 anos.

Os anos de 2023, 2024 e 2025 foram os mais quentes globalmente e registraram os maiores números de ondas de calor no Brasil desde 1980: dez eventos em 2024, oito em 2023 e sete em 2025.

Em um cenário de El Niño moderado a intenso, combinado à tendência de aquecimento global, o Cemaden avalia que as ondas de calor em 2026 e 2027 podem ser mais intensas e ter maior impacto sobre a população. O documento também cita risco de aumento de incêndios na Amazônia e no Pantanal, dependendo do grau de seca nessas regiões.

Preparação e monitoramento

O Cemaden recomenda reforço no monitoramento hidrometeorológico e geodinâmico, com atenção a acumulados de chuva, previsões de seca, níveis dos rios, vazões, umidade do solo e condições de encostas.

O órgão também orienta a reavaliação de áreas críticas, como encostas ocupadas, margens de rios, fundos de vale, pontes, taludes, áreas urbanas com drenagem insuficiente e comunidades isoladas.

A nota reforça que o eventual estabelecimento do El Niño não permite antecipar eventos específicos, mas indica mudanças probabilísticas nas condições de risco. Por isso, as informações devem ser usadas para orientar vigilância, planejamento e preparação antecipada.

Guia rápido

Documento: Nota Técnica nº 627/2026/SEI-CEMADEN
Tema: El Niño 2026/2027 e impactos esperados no Brasil
Situação: fenômeno em desenvolvimento no Pacífico tropical
Ponto central: possibilidade de Super El Niño ainda é incerta
Chance de El Niño até dezembro: 96%, segundo NOAA citada pelo Cemaden
Chance de evento muito forte: 37%
Norte e Nordeste: risco de redução de chuvas e estiagem
Sul: maior propensão a chuvas intensas e desastres hidrológicos
Centro-Oeste e Sudeste: possibilidade de estação chuvosa comprometida
Calor: ondas de calor podem se intensificar em 2026 e 2027

Nota completa do Cemaden

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