Uma licitação federal em andamento recolocou no planejamento logístico do Nordeste uma conexão discutida há mais de duas décadas: transportar cargas pela área navegável do Rio São Francisco e, na região de Juazeiro e Petrolina, transferi-las para trens com destino ao litoral.
O Edital RLE nº 2/2026, da Infra S.A., prevê estudos de viabilidade para dois corredores ferroviários: Juazeiro do Norte (CE)–Juazeiro (BA) e Salgueiro (PE)–Porto de Suape (PE). A extensão informada no objeto da contratação é de aproximadamente 947 quilômetros.
Se os projetos ferroviário e hidroviário avançarem e forem efetivamente conectados, o conjunto poderá formar um corredor intermodal entre o interior da Bahia, o Vale do São Francisco e o mar, pelo Porto de Suape. Isso não significa que as embarcações seguiriam até Pernambuco pelo oceano: as cargas navegariam pelo São Francisco e precisariam ser transferidas para a ferrovia em um terminal na área de Juazeiro e Petrolina.
Essa integração, porém, ainda é uma possibilidade a ser examinada. O edital ferroviário não contrata obras e não define um terminal de transbordo entre barcaças e trens. A reativação comercial da hidrovia também permanece em fase preparatória.
O que será estudado
O serviço encomendado pela Infra S.A. inclui levantamentos de demanda, engenharia, operação, meio ambiente, viabilidade econômico-financeira e questões jurídicas e regulatórias. A empresa contratada também deverá apoiar futuras audiências públicas, a análise de órgãos de controle e a eventual estruturação de uma concessão.
O projeto básico divide o corredor em cinco segmentos:
- Juazeiro–Petrolina, com 4 quilômetros de linha existente;
- Petrolina–Salgueiro, com 270 km, trecho novo, segundo diretrizes técnicas específicas;
- Salgueiro–Missão Velha, com 96 quilômetros de linha existente;
- Missão Velha–Juazeiro do Norte, com 32 quilômetros de linha existente;
- Salgueiro–Suape, com 545 quilômetros de linha existente ou parcialmente implantada.
O valor máximo estimado para os estudos é de R$ 10,99 milhões. O contrato terá vigência de 27 meses, com prazo de 25 meses para a execução dos serviços após a ordem de início. Uma primeira análise de custo-benefício do trecho Salgueiro–Suape deverá ser entregue em quatro meses.
Licitação continua sob recurso
A sessão de abertura ocorreu em 23 de junho. Em parecer de 26 de junho, a comissão de licitação considerou habilitado o Consórcio Nova Logística do Nordeste, formado por Sysfer, Logit e Lobo & Rizzo, com proposta de R$ 5.596.808,58 — cerca de 49% abaixo do orçamento máximo.
O resultado ainda não deve ser tratado como definitivo. As empresas Eagle e Tylin apresentaram recursos administrativos, e o consórcio habilitado protocolou contrarrazões. Até a consulta feita em 19 de julho, a página oficial classificava o processo como “em andamento” e não apresentava homologação ou contrato assinado.
Hidrovia pode ampliar a área atendida
O Ministério de Portos e Aeroportos anunciou em junho de 2025 um plano para recuperar 1.371 quilômetros de navegação comercial entre Pirapora (MG) e Petrolina. Segundo a pasta, esse tipo de operação de cargas não ocorre no rio desde 2012, principalmente em razão do assoreamento.
O projeto foi apresentado em três etapas, todas com previsão de conexão a rodovias e ferrovias. A primeira compreende 577 quilômetros, dos quais 525 navegáveis, entre Ibotirama, Sobradinho, Juazeiro e Petrolina. O governo projetou movimentação de cinco milhões de toneladas no primeiro ano, mas esse volume é uma estimativa e depende da execução da infraestrutura e da atração de operadores e cargas.
No desenho divulgado pelo ministério, grãos, algodão, fertilizantes e outros produtos do Oeste da Bahia poderiam seguir por terra até Ibotirama, navegar até Juazeiro e, de lá, continuar por rodovia ou ferrovia. Na ocasião, o destino citado para esse fluxo foi o Porto de Aratu-Candeias, além de futuras conexões com a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) e outros portos baianos.
O novo estudo ferroviário acrescenta uma alternativa: a partir de Petrolina, as cargas poderiam seguir por uma linha nova até Salgueiro e depois pelo ramal da Transnordestina em direção a Suape. A viabilidade dessa rota terá de ser comparada com as saídas por Aratu-Candeias, Porto Sul e outros corredores. Distância, tarifa, tempo de viagem, capacidade dos terminais e regularidade da navegação serão decisivos.
A proposta não é inédita. Um documento do Ministério dos Transportes publicado em 2000 já apresentava o trecho Petrolina–Salgueiro como a ligação entre a Hidrovia do São Francisco e a malha ferroviária com acesso aos portos de Suape e Pecém. A licitação atual retoma a ideia, agora com a exigência de atualizar demanda, custos, impactos ambientais e modelo de operação.
Reativação do rio ainda não foi concluída
Os dados mais recentes do Dnit recomendam cautela com os prazos. No Relatório de Gestão de 2025, o órgão informou que não realizou campanhas de dragagem nem de sinalização na Hidrovia do São Francisco naquele ano.
Segundo o documento, o estudo preliminar e outros elementos para a sinalização foram concluídos, deixando o projeto tecnicamente apto a ser licitado. A dragagem foi adiada para alinhamento com o licenciamento ambiental e com o projeto de concessão. Em sentido positivo, a eclusa de Sobradinho permaneceu disponível durante todo o ano, mas seu funcionamento isolado não assegura a retomada do transporte comercial em toda a extensão planejada.
O anúncio de 2025 também previa 17 instalações portuárias públicas de pequeno porte, inclusive terminais em Juazeiro e Petrolina. O cronograma inicial mencionava licitação em setembro de 2025 e início das obras em janeiro de 2026. Até 19 de julho, a reportagem não localizou, nos documentos consultados, confirmação de que essas duas etapas tenham sido cumpridas.
Obras até Suape dependem de nova base técnica
Outro ponto em aberto é a conclusão da ferrovia entre Salgueiro e Suape. No Acórdão nº 1.217/2026, o Tribunal de Contas da União determinou que o Ministério dos Transportes e a Infra S.A. não assumissem novos compromissos financeiros para a construção antes da correção das deficiências de justificativa e da demonstração atualizada da vantagem socioeconômica do empreendimento.
A decisão não impede a realização dos estudos. Ao contrário, o TCU exigiu um plano de ação para atualizar a avaliação de viabilidade, etapa necessária antes de uma decisão sobre novos investimentos físicos.
Em análise apresentada para atender ao tribunal, a Sudene estimou para o trecho Salgueiro–Suape um Valor Social Presente Líquido de R$ 4,76 bilhões e taxa de retorno econômico de 15,53%. O resumo público da análise projeta movimentação entre 18 milhões e 24 milhões de toneladas por ano, além de cerca de 13 mil empregos durante a implantação e 9,6 mil postos permanentes na operação e em atividades relacionadas.
Esses números são projeções, não resultados garantidos nem autorização automática para a obra.
O que precisa acontecer
Para que o corredor entre a hidrovia e o mar saia do planejamento, será necessário concluir a licitação dos estudos ferroviários, definir traçado e terminais, comprovar a demanda, obter licenças ambientais, escolher o modelo de financiamento ou concessão e assegurar recursos para as obras.
No eixo fluvial, também serão necessários dragagem, sinalização, terminais de transbordo, licenciamento, regras de operação e condições de navegação suficientemente regulares. Somente depois dessas etapas será possível saber se a conexão por Suape será competitiva e qual parcela das cargas da Bahia e de outros estados poderá utilizar o novo caminho.
Para a Bahia, o principal efeito potencial é a criação de mais uma saída para a produção do Oeste e do Vale do São Francisco, além das alternativas já planejadas em território baiano. Por enquanto, no entanto, o que existe é uma convergência entre projetos em estudo — e não um corredor intermodal pronto ou com data definida para entrar em operação.
