Uma pesquisa inédita do Instituto Sumaúma revela que quase 60% das comunidades quilombolas no Brasil enfrentam invasões e garimpo ilegal. O estudo foi apresentado durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30).
Intitulado Corpos-territórios quilombolas e o fio conectado da ancestralidade: entre as agendas de justiça climática e as práticas culturais e comunicacionais, o estudo destaca a sobreposição de crises climáticas e violações de direitos humanos, ameaçando os territórios e modos de vida dessas comunidades. De acordo com o Instituto Sumaúma, mais da metade dos territórios quilombolas já enfrenta secas extremas, e 43,4% sofrem com a perda de plantações.
“Os dados provam o que as lideranças denunciam há décadas: o racismo ambiental define quem recebe investimento e quem tem seu território invadido. Não haverá justiça climática enquanto o financiamento climático não adotar lentes antirracistas.
Os quilombos não são apenas vítimas das mudanças climáticas, eles são detentores das soluções ancestrais de manejo e proteção que o Brasil precisa”, afirma Taís Oliveira, diretora do Instituto Sumaúma.
Desafios e protagonismo
A pesquisa também aponta que 64,2% das lideranças quilombolas enfrentam dificuldades para captar recursos devido ao racismo estrutural. A exclusão é agravada por falhas no ecossistema de filantropia e investimento social, que raramente prioriza projetos liderados por comunidades negras. Racismo (87%), demanda por políticas públicas (85%) e educação (77,4%) são os temas mais urgentes.
O estudo destaca o protagonismo feminino e jovem entre comunicadores quilombolas, com 58,5% sendo mulheres e quase 70% entre 18 e 39 anos. Apesar do alto nível de escolaridade, 88% vivem com até cinco salários mínimos.
A infraestrutura digital é precária, com quase metade das comunidades enfrentando problemas de internet e sinal móvel. No entanto, 96% usam o celular diariamente e 87% recorrem às redes sociais para mobilização.
As conclusões do estudo reforçam a necessidade urgente de políticas públicas e financiamento antirracista que reconheçam o papel das comunidades quilombolas na justiça climática e na preservação dos biomas brasileiros.
Juliane Sousa, quilombola, jornalista e pesquisadora, comenta: “Ainda existe uma imagem equivocada e até estereotipada de que os quilombolas vivem isolados, e essa não é a realidade. Assim como outras populações, nós também temos acesso à internet, frequentamos faculdade e levamos uma vida como qualquer outra.
A diferença está na nossa relação com a natureza, que vem de nossas heranças ancestrais e se baseia no cuidado com todas as formas de vida. Para nós, nada disso é novo, é só a maneira como vivemos.”
