Uma serra na divisa entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte deixou de ser o último grande obstáculo para a chegada das águas do Rio São Francisco ao Oeste potiguar. Inaugurado em 2 de julho, em Luís Gomes, o Túnel Major Sales atravessa a formação rochosa por cerca de 6,5 quilômetros e permite a continuidade do fluxo de água pelo Ramal do Apodi.
A estrutura faz parte do Projeto de Integração do Rio São Francisco (PISF), conhecido como transposição. Embora o túnel não faça a captação diretamente no Velho Chico, ele é a passagem necessária para que a água, já conduzida pelo Eixo Norte do projeto, saia da Paraíba e avance em direção ao Rio Grande do Norte.
Com 6.577 metros de extensão, o Túnel Major Sales foi escavado em rocha e cruza o divisor de bacias entre os dois estados. O desemboque fica nas proximidades da BR-405, em Luís Gomes. A obra foi considerada pelo governo federal o trecho de maior complexidade técnica do Ramal do Apodi.
Túnel transporta até 20 mil litros por segundo
O túnel tem capacidade para conduzir até 20 metros cúbicos de água por segundo, volume equivalente a 20 mil litros a cada segundo. Trata-se de uma estrutura hidráulica subterrânea.
O Ramal do Apodi começa no Reservatório Caiçara, na Paraíba, e segue até o Reservatório Angicos, em José da Penha, no Rio Grande do Norte. O percurso total tem 115,5 quilômetros.
No início do ramal, a capacidade projetada é de até 40 metros cúbicos por segundo. Parte dessa vazão poderá ser destinada ao Ramal do Salgado, ligado ao Ceará. Após a derivação, até 20 metros cúbicos por segundo seguem pelo sistema em direção ao território potiguar, passando pelo Túnel Major Sales.
Obra amplia segurança hídrica no Oeste potiguar
A abertura do Túnel Major Sales permite que as águas da transposição avancem para uma região marcada pela irregularidade das chuvas e pela dependência de reservatórios locais para o abastecimento.
Quando o Ramal do Apodi estiver integralmente concluído e conectado aos sistemas estaduais de distribuição, a previsão é beneficiar cerca de 750 mil pessoas em 54 municípios do Rio Grande do Norte, da Paraíba e do Ceará.
No Oeste potiguar, a obra deve reforçar a disponibilidade hídrica de reservatórios e sistemas que atendem cidades, comunidades rurais e atividades econômicas. O planejamento também prevê maior regularidade para a Bacia do Apodi/Mossoró e para o Rio Umari.
O impacto, no entanto, será gradual. A inauguração do túnel libera o principal trecho de passagem da água, mas o atendimento pleno dos municípios depende da conclusão de outras estruturas do ramal, das interligações com adutoras e reservatórios e da operação definida pelos órgãos gestores de recursos hídricos.
A água transportada pelo PISF é bruta. Para chegar às torneiras, ela precisa ser captada, tratada e distribuída pelas companhias e sistemas locais de abastecimento.
Investimento supera R$ 1,5 bilhão
O investimento informado pelo governo federal para todo o Ramal do Apodi é de aproximadamente R$ 1,5 bilhão. Somente o Túnel Major Sales recebeu cerca de R$ 85 milhões.
A estrutura se tornou decisiva porque eliminou a necessidade de contornar o relevo da fronteira entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte. Com a perfuração da serra, a água passou a ter um caminho contínuo até o Alto Oeste potiguar.
Há ainda um investimento complementar de R$ 491,3 milhões para ampliar a capacidade de bombeamento do Eixo Norte da transposição. A intervenção prevê novas bombas em estações de Pernambuco e deve elevar a vazão do eixo de cerca de 24,75 para 49 metros cúbicos por segundo, ampliando a capacidade de atendimento do sistema.
Parte de um projeto maior
O Projeto de Integração do Rio São Francisco possui 477 quilômetros de canais, túneis, aquedutos, estações de bombeamento e reservatórios distribuídos pelos eixos Norte e Leste. A previsão oficial é de atendimento a cerca de 12 milhões de pessoas em 390 municípios de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte.
No caso do Túnel Major Sales, a obra resume um dos desafios centrais da transposição: transportar água por longas distâncias, superar desníveis e atravessar formações rochosas para conectar regiões afetadas por ciclos de seca a fontes permanentes de abastecimento.
